8 de junho de 2011

conjugações.

 
e eu, boba, bebia doses de ingenuidade enquanto sonhava acordada. mania torturante, essa minha, de me apegar tão facilmente. os sonhos trancados no travesseiro - aquele ali mesmo, com a fronha amarrotada. disfarçava, com plural, essa minha singularidade. os músculos que se exercitavam num sorriso, hoje seguram os gritos assustados de surpresa e decepção. não vejo mais aqueles momentos, que eu chamava de esperança, sentados na cadeira ao lado. me dei conta de que te esquecer e seguir em frente não era mais uma opção - dentre várias outras. cá entre nós, obrigação nunca foi meu idioma preferido. e essa tal de 'hora certa' que não chega? presa n'um engarrafamento de ilusões. vi que a vida continua, sempre gritando suas conjugações. aprendi, na prática, que viver é um verbo intransitivo, bobeira minha esperar por complementos.

texto por: Lorena Caldas

29 de abril de 2011

saudade.

saudade de me perder nas cordas do seu violão, da sua voz amaciando meu ouvido. saudade da nossa música, do nosso momento. da sua mão na minha, prometendo o infinito. do barulho do silêncio, umedecendo meu rosto de emoção. oito letras, três sílabas, incontáveis lembranças. saudade. quem diria que eu me camuflaria num sorriso. que eu esconderia minhas lágrimas. as lágrimas da minha fraqueza disfarçada de orgulho. as lágrimas que um dia você secou com um beijo inesperado. e assim eu sigo em frente. mesmo assim. procurando ainda vestígios de você no caminho de volta pra casa. querendo um certo par de pegadas ao lado das minhas. querendo não ter a certeza de que não vou encontrá-las. sabendo que tudo que você deixou foram adesivos dessa tal de saudade, colados na minha memória - que por mais que eu quisesse, não falha nessas horas.

texto e foto por: Lorena Caldas

18 de março de 2011

despedida.

a vontade passa e a sombra de um vazio insano me domina. mais uma taça de vinho e uma porção de você. essa embriaguez sempre fazendo parte dos meus momentos mais sóbrios. olho uma útlima vez. sua foto meio amassada, úmida de lágrimas cuspidas pelas máscaras que você pintava com cores de paixão. pode entrar. vem buscar o que você esqueceu comigo. abre essa porta e leva o cheiro de disfarce que ficou grampeado no meu quarto. me atrasei pro chá das cinco procurando minha identidade, o tal do ''eu'' em mim. acendi o cigarro que você largou na cabeceira da cama. e toda essa fumaça levando o que sobrou dos pedaços da minha verdade. mais um gole, última tragada. fecho a porta, apago a luz. talvez eu não me importe mais de ser a última a se retirar.

texto e foto por: Lorena Caldas

20 de outubro de 2010

janela.


tudo não passava de um mero jogo, um quebra-cabeça desmontado. mas ela não sabia jogar. as peças pareciam não se encaixar mesmo as figuras sendo compatíveis. e depois de muito esforço, a desistência tomou conta da vontade de continuar, roubou suas esperanças, sequestrou seu singelo sorriso de algodão. uma lágrima atravessou-lhe o rosto, desfilando, exibindo sua vitória enquanto ela se encostava decepcionada no colo aconchegante de seu travesseiro. tão grande era sua inconformação que a pequena garota mal sentia as alfinetadas dadas por cada gotinha que se formava em seus olhos verdes - de uma falha esperança. de repente, a menina, cujas mãozinhas secavam as bochechas úmidas, avistara o ser alado que tentava, incessantemente, atravessar sua janela entreaberta. ficara por um indeterminado espaço de tempo observando o passarinho. a vontade de ajudar gritava a todo momento, mas ela permanecia inerte, somente a observar. e sem um instante sequer de fraqueza, o envolvente beija-flor era capaz de sobrevoar, não só seus pensamentos, mas agora também seus móveis e objetos espalhados pelo chão do quarto. a ave dera um sentido inexplicável ao jogo que tentara brincar minutos antes. ela olhava o quebra-cabeça e não conseguia entender para onde teria ido toda aquela complexidade. ainda na compania de seu encorajador, reconstruindo a imagem - que devolvia, aos poucos, o mais lindo dos sorrisos-, ela encontrara a peça que tanto procurava: sua força de vontade.

texto e foto por: Lorena Caldas

6 de setembro de 2010

construção.

e por um breve instante - que mudaria sua vida-, ela resolvera olhar para trás. o passado - a pouco, nomeado presente - formava nada além de meras recordações rasgadas, fotos embaçadas da construção do que chamava de futuro. andou lentamente - talvez pelo medo de remexer as lembranças esquecidas - e fora catando, pouco a pouco, os destroços do que restou de sua obra - que, nem com todos os remendos e falhas, desabou. e enquanto o passado de daqui a pouco se transformava em presente e criava uma nova página a ser chamada de futuro, ela se vira para a frente e analisa o tanto que ainda falta construir.

texto e foto por: Lorena Caldas

18 de junho de 2010

distância.

e me confunde, essa distância de um passo. folgado esse compasso, milimetrando a vida, o espaço. cada centímetro, cada caminho, cada medida. todos unidos por um certo laço. apertado abraço, o gostinho salgado que quebra o amargo do doce pedaço. meu choro curado pelo resto de cigarro aceso, que agora apago. o traço do início do recado que lhe daria de presente, não satisfaço! e pelo grito sufucado do silêncio que faço, a velha folha traçada eu amasso e, de novo então, começo do começo. as palavras que me fogem os neurônios, eu caço e as marcas da distância, atravesso. o labirinto dos fonemas que agora enlaço, meu cantinho, meu momento no terraço, ilude a coragem dessa mente do pensar escasso. na folha de papel almaço vejo os ruídos do meu pensamento, deletados passo a passo. sinto o cheiro de queimado das faíscas que machucam meu cansaço. logo me debruço no traço do laço. as ideias, despedaço. e assim confesso: esse é um vício que já não mais disfarço.

texto e foto por: Lorena Caldas

13 de abril de 2010

medo.

as tiras de madeira que se debruçavam pelo chão pareciam se estender eternamente. só precisava de algumas passadas à frente. pelo menos, por enquanto. Suas pernas tremiam, como em seus primeiros passos. 'lembrara-se', sorrindo brevemente. procurava algo que não conseguia encontrar em canto algum. era talvez a barreira mais difícil. coragem. tudo o que precisava naquele instante. e talvez com uma pitada de auto-confiança, ela poderia se mover facilmente. olhou novamente a multidão que a esperava. rezou para que seu nome demorasse a ser pronunciado. aquela não parecia ser a hora pela qual esperava por todo aquele tempo. ela estava insegura, tensa, um pouco pálida, talvez. de repente, como se o mundo fizesse um pacto de silêncio - seu campo de audição ficara mudo. - nenhum barulho. respirações. cadeiras se movendo. dedos estralando. nada fazia um ruído sequer. só se podia ouvir as palavras que até então dilacerava seus tímidos pensamentos. chegara sua vez. e como se estivesse acostumada com tudo aquilo, um surto de otimismo lhe firmou as pernas. e lá estava ela, caminhando confiantemente, rumo aos primeiros verdadeiros passos de sua vida. seu show acabara de começar. sua liberdade. sua independência. bem vinda, garota! agora, sente-se e tome uma xícara de chá. vamos conhecer os próximos obstáculos.

texto e foto por: Lorena Caldas